quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Quero muito passar este elogio

Elogio ao amor (Miguel Esteves Cardoso - Expresso

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixonade verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão alimesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.Hoje em dia aspessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passívelde ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia serdesmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amorcego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, sãouma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nascostas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea porsopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amorfechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.

Amor éamor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio,não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não sepercebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor éa nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Uma carta para mim :-)

' Por muito duro que seja o caminho, por muito difícil que seja a caminhada, por muito que sintamos que estamos perdidos, há sempre uma porta que nos leva ao lugar certo!
Às vezes esse lugar parece-nos escuro e sombrio. Lá sentimo-nos sós, com frio, desesperados e com medo...
Mas é esse medo, esse frio, esse desespero que nos eleva e nos faz ver que somos o resultado daquilo que criamos. E é desse medo, desse frio, desse desespero, que nasce uma luz que nos faz acordar e que nos guiará no nosso caminho.

As tristezas e o sofrimento de hoje são as alegrias e as felicidades de amanhã. São elas que nos tornam aquilo que somos... Por isso nunca te arrependas dos erros que cometeste, sofre o que tens que sofrer para apagar o mal que fizeste e seguires em frente. Porque tu és aquilo que criaste e o que fizeste não podes mais alterar, mas o hoje e o amanhã são teus e há tempo para mudar.

Não fiques parado no tempo, vive daqui para a frente uma vida bonita, ama tudo aquilo que te rodeia, ajuda os outros sem esperar nada em troca e perceberás que vale a pena sonhar e viver.
Vais aprender que a ajudar os outros é que vais encontrar a felicidade e te sentir completo e preenchido!

Neste momento difícil não estás só! Há tanta gente à tua volta ( que nem consegues ver) que está lá à espera que te tornes naquilo que te estás a tornar e que sempre deverias ter sido.

Tem fé em ti! Eu tenho fé em ti! Eu sei que Deus nunca nos dá uma cruz mais forte daquilo que conseguimos aguentar.

Chegou a hora! Aproveita este momento de dor e de sofrimento para dar o salto para uma nova vida cheia de sentido e de alegria...

Sê feliz!

Abre os olhos e nasce para a vida!
Encontra a paz, vive a paz e fica em paz.

Com carinho'
*****

domingo, 9 de setembro de 2007

Não leias, vai!


" Na praia da Boa Nova, um dia
Edifiquei (foi esse o grande mal)
Alto castelo, o que é a fantasia
Todo de lápis-lazuli e coral"

António Nobre

Grãos de areia e beijinhos

Avistei um pára-quedas
Saltaste e...
Lá estavas tu livre, entre os muros que nos separam
Os olhos não escondiam o medo
A voz prendia-se e disfarçaste muito bem a tossezinha nervosa
Contamos todas as rochas e ofereci-te conchinhas

Entre beijos e abraços sussurraste-me ao ouvido
E fizeste-me mais leve

Obrigada por teres voltado!

domingo, 8 de julho de 2007

Estar enamorado

"Estar enamorado, amigos, é encontrar o nome certo da vida.
É encontrar por fim a palavra para fazer frente à morte.
É encontrar a chave oculta que abre o cárcere em que a alma está cativa.
É encontrar-se da terra com uma força que chama de cima.
É contemplar do cume a razão das feridas.
É notar nuns olhos um verdadeiro olhar que nos olha.
É escutar numa boca a própria voz profudamente repetida.
É surpreender numas mãos esse calor da perfeita companhia.
É suspeitar, definitivamente, que a solidão da nossa sombra está vencida.
Estar enamorado,amigos, é ouvir no deserto a cristalina voz de um rio que nos chama.
É governar a luz do fogo e ao mesmo tempo ser escravo da chama.
É entender o diálogo pensativo do coração e da distância.
Estar enamorado, amigos, é assenhorar-se das noites e dos dias.
É contemplar um comboio que corre pela montanha com as luzes acesas.
É contemplar perfeitamente que não há fronteiras entre o sonho e a vigília.
Estar enamorado, amigos, é sofrer espaço e tempo com doçura.
É não saber se são nossas, ou não, as longínquas amarguras.
É regressar à fonte das águas turvas da corrente da angústia.
É partilhar a luz do mundo e ao mesmo tempo partilhar a sua noite escura.
É espantar-se e alegrar-se por a lua ser ainda lua.
É comprovar no corpo e na alma que a tarefa de ser homem é menos dura.
Estar enamorado é começar a dizer SEMPRE, e daí em diante não voltar a dizer NUNCA.
E é além disso, amigos meus, ter a certeza de ter as mãos puras."

Francisco Luis Bernárdez

segunda-feira, 14 de maio de 2007

6 Amigas Que Toda a Mulher Deveria Ter

Com afinidades e diferenças, elas são a família que escolhemos. Fiéis escudeiras, conhecem os nossos gostos e desgostos e sabem exactamente o que fazer quando precisamos delas. Embora a gente possa contar com as amigas nas piores enrascadas, há sempre aquela que se encaixa melhor numa determinada situação: a que ama viajar, a que consulta os astros antes de dar palpites reveladores, a que ressuscita a auto-estima... Se você tem essas companheiras, dê graças aos céus pela linha de frente poderosa! Se não tem, vá atrás das que "faltam" - porque certamente elas tornam o dia-a-dia muito mais colorido.

AMIGA QUE DIZ A VERDADE
1. É aquela que interrompe o seu discurso cheio de razão, olha bem nos seus olhos e diz: "Não, você não está certa". Sem meias palavras, mostra um ângulo da questão que não era óbvio e pronto: você ouve os argumentos e acaba reconsiderando. Porque, quase sempre,ela tem razão. De vez em quando vocês se estranham, mas logo passa. Afinal, não é qualquer pessoa que está falando. Márcia Torvelo, economista, sabe muito bem a quem recorrer quando quer ouvir a verdade. "Se me sinto injustiçada, procuro aquela amiga que não vai concordar comigo só para me agradar. Muitas vezes fico arrasada com o que ouço, mas estabelecemos uma relação de confiança tão grande que ela tem a liberdade de me dizer coisas que outras pessoas não ousariam." Para questões menos graves, essa amiga é igualmente eficaz. Quer saber se o novo corte de cabelo ficou bom? Pergunte a ela. Detalhe: amiga que diz verdades também é capaz de ouvir verdades. Isso lhe dá o mesmo direito de ser absolutamente sincera com ela. Afinal, amiga é para essas coisas.

AMIGA CHEIA DE SABEDORIA
2. Ela conhece uma taróloga ótima, freqüenta um massagista japonês e entende um pouco de astrologia, numerologia, I Ching e cabala. Se bobear, tem ainda linha direta com Deus. Acredita que o que fazemos com o outro volta para a gente e que tudo pode dar certo se quisermos de verdade. Essa amiga realmente tem fé na energia cósmica e passa essa certeza para você. Por isso, quando sente que está pessimista, a pediatra Alice Pedroso recorre a sua amiga zen. "Sei que ela vai pegar o meu mapa e descobrir qual quadratura de astros está me deixando assim. Só conversar com ela já me tranqüiliza." Mesmo sem entender bem o que significa "entregar para o Universo", você segue seus conselhos: toma um banho de sal grosso, pinga algumas gotinhas de lavanda no lençol e vai dormir. E não é que no dia seguinte você acorda melhor?

AMIGA QUE É SUPERPRÁTICA
3. Ela sempre lembra de alguém que pode quebrar o seu galho, seja um contato de trabalho, um candidato a namorado ou uma ótima costureira. Prática por natureza e generosa por vocação, ela tem expediente e adora adotar uma alma perdida. Não sabe a que médico ir? Ela indica. Precisa organizar uma festa? Ela conhece os melhores fornecedores. Está em dúvida sobre o que escolher no cardápio do restaurante? Ela decide por você. É um pouco mandona, mas deixe claro quando não desejar sua interferência e nunca terá problemas com ela. Essa amiga quer sinceramente que você seja feliz e não poupa esforços para ajudá-la. Para melhorar o clima do seu casamento, é capaz de pegar seus filhos no fim de semana só para deixar os pombinhos sozinhos. Mas atenção: essa boa samaritana não suporta a ingratidão. Tudo que espera de você (e ela merece!) é reconhecimento. Então, agradeça, agradeça, agradeça.

AMIGA QUE LEVANTA A AUTO-ESTIMA
4. Ao menor sinal de abatimento, ela entra em ação. Lembra todas as suas conquistas, enumera suas qualidades e só falta dar uma salva de palmas para animá-la. Se percebe que você está preocupada com grana, oferece dinheiro emprestado antes de você pedir. Se acha que está triste, marca uma tarde no cabeleireiro para as duas. Sempre olha a metade do copo que está cheia e tem o dom de fazê-la sentir-se querida e admirada. Se você encerrou um relacionamento ou acaba de ser demitida, convoque-a. Como um espelho, ela devolve a sua melhor imagem: a de uma pessoa que ela admira e que, se não existisse, deixaria o mundo bem sem graça.

AMIGA DE BALADA
5. Se o forte das suas outras amigas é conversar, essa prefere ação. Uma festa a fantasia, uma noitada sem hora para acabar, uma viagem bate-e-volta... Como uma adolescente, esbanja disposição para fazer coisas, não importa muito o que nem a que horas. O tempo que passam juntas é só lazer. Esqueça crises ou inseguranças - esses assuntos são da seara de outra amiga. Essa é parceira de balada. É ela que inventa uma festa-surpresa no seu aniversário, se oferece para organizar o amigo-secreto do fim do ano e fica horas na fila para comprar ingressos para o show da sua banda preferida. Tudo o que você curte ela curte também. Assim, estão fadadas a se divertir muito, sempre. Quer companhia melhor que essa?

AMIGA FANÁTICA POR COMPRAS
6. Para ela, fazer compras é uma festa. Está sempre pronta para conhecer uma loja nova, não importa se fica numa ruazinha escondida lá no fim do mundo. Endereços descolados são a sua especialidade. E adora companhia para bater perna e consumir, seja na Daslu, seja na feirinha hippie. Sem preconceito. E jamais, em hipótese alguma, perde a paciência numa liquidação. Tem olho clínico para achar peças maravilhosas no meio de tranqueira e divide seus achados de bom grado com as amigas. Não vai se incomodar se você levar horas experimentando mil sapatos para no fim escolher mais uma bota. Mesmo sabendo que você já tem três pares, ela não a recrimina. Fica solidária com a sua súbita paixão pelo novo modelo e endossa a escolha repetindo que a bota ficou o máximo. "É a sua cara", diz, animada, deixando você ainda mais feliz.

Regina Valadares

A Regina que me desculpe mas eu continuo a preferir os homens. As amigas estão sempre lá, eu sei, mas nada melhor que um homem para uma bela conversa, levantar-nos a auto-estima e até fazer compras.
As mulheres são umas chatas. Senão vejamos, tema nº1: homens. Quando me encontro com alguma amiga para pôr a conversa em dia faço sempre um rewind na minha memória porque sei que é certinho começar-me a falar do gajo de quem falamos na última conversa, ou então, na melhor das hipóteses fala-me de um "homem novidade" com quem teve um relacionamento de 2 meses encantadores mas que a abandonou sem se perceber porquê e que já soube pela "melhor amiga" que ele entretanto já está a viver com outra...haja paciência!
Há cerca de 10 anos que ouço as mesmas histórias, com algumas pequenas diferenças é certo ( agora já moram juntos passados 2 dias de se conhecerem!!! e oferecem prendas de valores ai Jesus! ficando a minha pequenina cabeça pensadora a matutar mas o que homem terá feito para a desgraçada esbanjar assim o subsídio de natal?!)

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Eu nunca li António Lobo Antunes

Foi depois de ouvir uma entrevista na RTP1, em Setembro do ano passado, que fiquei a conhecê-lo melhor e nessa noite estava capaz de ficar ali a ouvi-lo colada à televisão.
Fiquei com a certeza de ser uma pessoa de uma beleza interior sem limites e passei a ser sua admiradora.

Numa entrevista afirmou: "no fundo, a nossa vida é sempre uma luta contra a depressão e, em relação a mim, escrever é uma forma de fuga ou de equilíbrio… Por outro lado, há a sensação de qualquer coisa que nos foi dada e que temos obrigação de dar às outras pessoas: quando não trabalho sinto-me culpado. Há ainda a sensação do tempo, ou seja, ter na cabeça projectos para 200 anos e saber que não vamos viver 200 anos..." E porque a vida, para mim, é mesmo isto, tinha que mostrar-lhe que estou consigo neste momento menos bom e o quanto fiquei decepcionada com aquilo que a vida nos guarda, especialmente a quem dá tanto de si aos outros.

Como diria uma amiga "são provas..." Se o são ou não, não sei. Mas que a força interior é o que mais conta nestas situações, não duvido. E acima de tudo é preciso que aqueles que nos rodeiam não nos façam sentir uns coitadinhos mas continuem a acreditar em nós.

Como não gosto de falar de doenças ( e muito menos escrever sobre elas) prefiro pensar que o António (permitam-me que o trate assim) está apenas a fazer uma curta pausa no seu trabalho de psiquiatra (sim, que o escritor nunca pára) para aprender e daqui a uns tempos nos trazer novidades. Por mim, continuarei atenta e prometo tornar-me uma humilde e assídua leitora se vencer esse bicharoco que o veio visitar.

Deixo-vos com um excerto delicioso da obra "A ordem natural das coisas" :

ATÉ aos seis anos, Iolanda, não conheci a família da minha mãe nem o odor dos castanheiros que o vento trazia da Buraca, com as ovelhas e os chibos que galgavam a Calçada na direcção do cemitério abandonado, tangidos por um velho de bóina e pelas vozes dos mortos. Ainda hoje, meu amor, estendido na cama à espera do efeito do valium, me sucede como nas tardes de verão em que me deitava, à procura de fresco, num bairro de jazigos destroçados: sinto um ornato de sepultura magoar-me a perna, oiço a erva das campas no lençol, vejo os serafins e os Cristos de gesso que me ameaçam com as mãos quebradas; uma mulher de chapéu plantava couves e nabos nas raízes dos ciprestes; os badalos dos cabritos tilintavam na capela sem imagens, reduzida a três paredes calcinadas e a um pedaço de altar com toalhinha submerso em trepadeiras; e eu observava a noite avançar lápide a lápide, coagulando as bênçãos dos santos em manchas de trevas.

Mas ontem, por exemplo, abraçado ao teu corpo enquanto aguardava que a indulgência do remédio me libertasse dos sobressaltos da memória, veio-me à ideia um crepúsculo antigo, em cinquenta ou em cinquenta e um, com os canteiros do jardim regados de fresco, o Senhor Fernando, em camisola interior, a fazer ginástica à varanda, e um reboliço de gatos à porta da cozinha, comigo empoleirado no muro a farejar as brisas de Monsanto e a escutar os cavalos dos monárquicos vencidos que baixavam a serra (conforme me contou a Dona Anita que era menina nessa altura) a caminho das celas da Penitenciária.

Não entendo por que motivo, querida, nunca te interessaste pela minha infância: sempre que falo de mim encolhes os ombros, a boca torce-se, as pálpebras prolongam-se de desdém, rugas escarninhas surgem por detrás da franja do cabelo loiro, de modo que acabo por me calar, envergonhado, a colocar os copos, os pratos e os talheres na mesa do almoço, enquanto a tua tia tosse na despensa e o teu pai roda os botões do televisor em busca das estridências da novela. E todavia, Iolanda, logo que adormeces, mal o teu rosto, amolgado na almofada, readquire a inocência do presépio de outrora, tal como te vi, pela primeira vez, na pastelaria à esquina do Liceu, quando os teus dedos sujos de tinta e os teus cadernos escolares me comoveram de uma alegria sem sentido.

logo que adormeces e uma brancura de olmo compássaros nos atravessa o quarto, arengo sem que me troces, converso, pairando sobre ti, com as tuas palmas inertes e as tuas coxas indefesas, e a casa onde morei antes da família da minha mãe surge da noite, nascida de uma imperfeição do espelho ou da gaveta da cómoda em que a nossa roupa se mistura com ninhos de traças e maçanetas de cobre, desde que há meses me ordenaste Vem e eu me apresentei, com o guarda-chuva e duas malas gastas, neste andarzinho da Quinta do Jacinto, em Alcântara, para explicar que sim, que tinha mais trinta e um anos do que tu mas o emprego do Estado, Senhor Oliveira, não é mau de todo, e claro que pagaria a electricidade, a renda e a despesa do talho.

Meu amor, ouve. Talvez me compreendas no teu sonho, talvez o teu corpo se liberte da ironia a meu respeito e me queira, talvez as tuas pálpebras, agora doces, estremeçam se disser como gostaria que mexesses e me deixasses mexer-te, talvez encostes a mim o tufo de pêlos do teu ventre, e os joelhos se abram devagar sobre uma húmida, lisa, tenra maciez de gruta que aprisiona o meu desejo numa firmeza de nácar. Mas desde o verão que me ignoras, apaixonada por um colega de turma de acne aceso e barba a despontar, que nos visita a pretexto de dúvidas de Geografia ou Matemática e me aperta as falanges, até estalar os ossos, num cumprimento cruel. Reduzido a um vago parente de colete, gravata e farripas grisalhas, incapaz de um pino, incapaz de ler sem óculos, incapaz de correr vinte metros por causa das hesitações do coração, incapaz, em suma, de competir com aquele miúdo borbulhoso, maior do que eu, sem barriga, sem calvície, sem placa, cujos dezoito anos me derrotam, aguardo a noite, numa imobilidade de tarântula, quando o teu corpo, temperado pelo azeite e pelo vinagre do dentífrico e do perfume barato, encolhe a fim de se ajeitar no colchão, quando a cadência do peito se torna sigilosa como a dos barcos, quando os teus lábios, afunilados pelo amuo do sono, sopram um beijo que se me não destina, aguardo a noite, medindo a densidade das trevas pela insónia do teu pai e a bronquite da tua tia do outro lado do tabique, e recomeço a minha história no episódio em que a deixei, regressando, Iolanda, à casa onde vivi antes de conhecer a família da minha mãe, com os seus mil corredores, os seus mil esconsos, os seus mil esconderijos, a casa, a casa,

a casa, meu Deus, cercada de grazinas sobre a falésia e os vapores do oceano, de portadas batidas pelo vento e cortinas em pedaços, com o anúncio Hotel Central em semicírculo na fachada e os três polícias secretos, sempre de negro, de braço erguido na saudação nazi, que bebiam, na salinha de estar, a cevada da manhã.

É então que me lembro dos equinócios que transviavam as arvéolas poisadas na cristaleira, nos enfeites do corrimão e no torpor das sinusites, e no temporal a varrer o larguinho em frente da pensão, com um antiquário às escuras e vitrinas de leques espanhóis e de budas remendados, é então que me lembro da garagem do mecânico albino que consertava os automóveis no verão, arrastando-se para a barriga dos motores. Os mochos, Iolanda, esmagavam-se no postigo do meu cubículo, pegado ao compartimento da cozinheira com uma retrete ao pé da cama e a vazante sempre a ferver no ralo, e a lotação do hotel éramos nós os dois mais a minha madrinha e os três polícias secretos, embora, quando chegava Julho, limpassem a praia de detritos, um calor amargo viesse tranquilizar as ondas, e de imediato a cozinheira e a velhota se revezassem no vestíbulo, de crochet no colo, na ilusão de que um táxi milagroso desembarcasse um grupo de americanas transidas, derrotadas pela angústia dos pinheiros e as molas dos estofos.

Se penso, meu amor, na vilazinha da meia dúzia de chalés tombados, sem proprietário, onde as aranhas fiavam o abandono, em equilíbrio sobre as ravinas e o grito das aves, e a comparo com este apartamento de Alcântara junto à passagem de nível do comboio e aos navios do Tejo que nos roçam as fronhas coroados de delfins, as minhas pernas procuram, sem que me dê conta, o côncavo dos teus joelhos, e comprimo o peito contra as tuas costas numa súplica de protecção que me confunde por me parecer ridículo um homem de quarenta e nove anos em busca de auxílio numa rapariguinha de dezoito ocupada a sonhar com arcanjos de motorizada vestidos de blusão de cabedal, acelerando, para a salvar, do velhote inofensivo que sou, atarantado de timidez e de surpresa. E contudo, Iolanda, não julgues que a minha vida numa aldeola da região da Ericeira em que os eucaliptos gotejavam as lágrimas de um desgosto sem cura não era agradável: era agradável. Quando a ciática não a afligia, descarnando-a de sofrimento no colchão, a cozinheira jogava às cartas comigo no quarto da caldeira avariada, enquanto os polícias secretos estremeciam o soalho sobre as nossas cabeças, a combinarem torturas e prisões. Em certas madrugadas de outono o mar e o vento amansavam e distinguia-se uma língua de areia logo povoada de toldos, de cabazes de comida, de pirâmides de chinelos e de famílias em roupão. Mimosas brotavam dos penedos e nos chalés flutuavam as candeias dos habitantes de outrora, até que uma camioneta de carreira arrebanhava os veraneantes que seguiam a chocalhar para Lisboa, à medida que as vagas engoliam a praia, o céu se cerrava em nuvens de tempestade com arestas de gaivotas gritando pelas rochas, as copas das árvores libertavam cardumes de pintarroxos dementes, e a minha madrinha, indiferente à tempestade, pegava na agulha de crochet e sonhava com americanas extravagantes, vestidas de sandálias e panamá como para uma expedição aos trópicos.

Um comboio abriu a noite perpendicular aos candeeiros da Avenida de Ceuta e paralelo ao rio bordado de armazéns, de pontões, de gruas, de guindastes, de contentores e de veículos de carga, a aguardarem a lúcia-lima da aurora e os operários que caminhavam no sentido do Tejo, custosos de distinguir na hesitação do sol.

O comboio, meu amor, deslocou-se rumo ao Estoril e a Cascais (do sítio onde moramos lobrigo na distância vilas que seguram nos dedos albatrozes e paquetes) e o nosso andar da Quinta do Jacinto vibrou como se um remoinho de bielas o fendesse de golpe, sacudindo nas prateleiras os ursos de barro e os elefantes de vidro, os palhaços de pano e o Wagner cromado, e fazendo cair, da cómoda para o chão, a caixita esmaltada em que guardas os anéis, as pulseiras, e os brincos de prata fingida que te dou no Natal, se me sobeja algum dinheiro do subsídio do Estado. O comboio deslocou-se para o Estoril enquanto retiniam campainhas e ampolas se acendiam e apagavam, desarrumou os prédios de Alcântara e tu rodaste no teu sono, sem deixar de dormir, até te voltares para mim num gemido infantil. Os tornozelos apertaram-se nos meus, e sem cessar de falar a minha boca aproximou-se traiçoeiramente, furtivamente, cautelosamente da tua: cheirava-te o hálito, cheirava-te o cabelo, cheirava-te o pescoço, cheirava as pregas da cintura, as pregas da barriga, e ia acariciar-te o púbis, sentir a textura de que és feita, quando o gato, assustado pelo frenesim do meu júbilo, pulou da colcha enovelando-se num candeeiro cujo quebra-luz se desfez aclarando por um segundo a mobília do quarto. E de pronto os teus cotovelos se agitaram, o corpo desviou-se rolando as ancas e as espáduas que se desprendiam das alças, e fiquei sozinho a salivar desgostos, embalado pelas carruagens que galopavam para os esgotos, as praias e os barquitos da Linha, embalado, meu amor, pelas vagas do rio, a segurar nas mãos, numa atitude de prece, a ausência de uma nádega.

[…]